O Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (Ibama) lançará no final do mês uma lista de espécies da fauna silvestre legalizando a comercialização a fim de torná-los animais de estimação. A relação prévia tem 51 aves, como algumas espécies de papagaio, periquito, arara e três répteis (iguana, lagarta-preguiça e papa-vento).
O objetivo principal do projeto é a necessidade de padronizar a regulamentação do uso da fauna silvestre com a intenção de diminuir a pressão da caça na natureza sobre espécies com potencial econômico.
A lista foi feita baseada na resolução do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama) de novembro de 2007 e disponibilizada no site do Ibama no período de 06 de março a 06 de abril para uma consulta pública, no intuito de que houvesse a participação da sociedade, governo, ONG’s, criadouros e Ministério Público.
De acordo com o coordenador de gestão do uso de espécies da fauna do Ibama, João Pessoa Riograndense, os 9200 e-mails recebidos foram analisados e passados por uma triagem, resultando em 54 espécies. “Ainda deverá ter mais uma redução para a lista definitiva”, conclui.
A resolução do Conama também estabelece os critérios para a inclusão e exclusão desses animais na lista utilizando o Princípio da Precaução, como explica o perito em biologia, Habib Fraxe: “O normativo engloba questões fundamentais da relação entre homem e animal, sem que um prejudique o outro”.
O projeto de liberação desses animais é bastante polêmico e diverge em diferentes opiniões como a do biólogo ornitólogo Sergei Studart Quintas favorável à elaboração da lista, mas contrário aos critérios utilizados na resolução.
Segundo o analista ambiental do Conama, João Luís Ferreira, a decisão tem o intuito de regulamentar a venda de animais silvestres, originados em cativeiro, como animais de estimação: “Antes era feito tudo praticamente à revelia, sem normas para coordenar”. A maior parte da lista preliminar, por exemplo, é composta de aves, grupo da fauna silvestre com o maior número de criadouros comerciais oficializados no país.
Além de padronizar a legislação ambiental, a lista suprirá uma demanda que existe e é crescente, inibindo à ilegalidade e contribuindo para a conservação das espécies da fauna silvestre brasileira. “É importante que a sociedade entenda que nós, do Ibama, estamos sendo restritivos e não permissivos”, afirmou João Pessoa.
Tráfico de animais
O Brasil está entre os países que mais contribuem para o tráfico de animais silvestres, perdendo apenas para o tráfico de armas e de drogas. Em todo o território nacional é possível encontrar uma grande quantidade de espécies vendidas na beira de estradas, rodovias e pessoas comprando.
Os bichos capturados em fiscalização ou devolvidos voluntariamente são encaminhados aos Centros de Triagem de Animais Silvestres (Cetas) e repassados para criadouros registrados no Ibama.
Existem três tipos de criadouros: os científicos responsáveis por recolocar alguns animais de volta à natureza; os conservacionistas, para preservar a biodiversidade atendida e os comerciais, os quais são pautados por essa resolução.
Conseguir falar com o Ibama é uma burocracia. É preciso falar com sete pessoas para obter alguns dados de criadouros do DF e só então compreender o funcionamento dos mesmos.
Os dois criadouros encontrados pelo grupo, os quais não podem ter os nomes revelados, não possuem uma fiscalização rotineira pelo Ibama, o máximo que é pedido é a realização de um censo indicando a quantidade de óbitos, fugas e animais que chegam até o local anualmente.
Mas o projeto não agradou a todos. De acordo com um criadouro comercial no Park Way, a divulgação da lista dificultou o trabalho, pois limitou a venda de animais antigamente comercializados. Agora com essa relação, se isso acontecer, esses criadouros perderão a licença e o Ibama recolherá os animais.
Os Cetas também encaminham animais ao Instituto Chico Mendes, localizado na Floresta Nacional de Brasília (Flona) e a outros cativeiros como os dos fieis depositários – pessoas cadastradas no Ibama com capacidade de receber determinada espécie em sua casa. Para o biólogo e fiel depositário, Roberto Sampaio a lista irá estimular as pessoas a terem animais
Logo após a publicação dessa lista, o Ibama entrará, inicialmente, com uma campanha nas escolas públicas e privadas do DF a fim de conscientizar a população para deixarem os animais em seu habitat natural. Segundo a ONG Arca Brasil, essa medida não passa de um paliativo de fachada, devido às inúmeras críticas que o instituto tem recebido por causa do projeto. “Porque esse tipo de campanha ainda não foi realizado com seriedade e estratégia, como se aplica em outras áreas do governo?”, questiona a ONG.
Porém, há quem acredite na eficácia do projeto de campanha. “A campanha de conscientização é fundamental para que a idéia dê certo”, afirma o doutor em biologia animal, Ayrton Peres. “O enfoque da campanha é para deixar os animais na natureza e não caçá-los”, especula. Além de fiscalizar, é necessário educar a sociedade. Se hoje são 10 milhões de animais traficados por ano é por que tem 10 milhões de pessoas querendo comprar.
